DEGUSTAÇÃO 10 DESAFIOS PARA NATAL

1. Capítulo 1: 10 desafios para o Natal (Eloá)

— Qual foi dessa vez?

— Sua avó! — Minha mãe Heloísa respondeu, abrindo a porta para eu passar e resumindo sua crise a uma pessoa: minha avó.

— Como não conseguem lidar com ela? Eu estou cheia de problemas até o último fio de cabelo — reclamei em voz baixa já caindo no sofá da sala, para que minha avó no andar de cima não nos ouvisse.

— O problema é mais sério do que pensa, Eloá! — Minha mãe explicou.

— Não sabemos como fazê-la tirar isso da cabeça — disse minha irmã Estela já com uma bandeja de biscoitinhos amanteigados que deixou também na mesinha de centro à minha frente.

— Se você não ajudar, não sei mais quem pode e todas nós vamos enlouquecer, definitivamente! — minha outra irmã Ana veio com os guardanapos e se sentou do meu lado direito.

Minha mãe fechou o cerco, vindo se sentar na beira da sólida e comprida mesinha de cedro e roubou um dos biscoitinhos.

— Sua avó tem uma predileção por você, Eloá — mamãe assumiu e era absolutamente estranho uma mãe deixar tão claro que uma neta poderia ser a preferida.

O amor não era para ser igual?

— E nós estamos bem com isso — Ana deu de ombros. — A gente só quer seguir com nossas vidas em paz.

— Parem! Podem me explicar do que se trata?

— Você não contou para ela?! — Estela se surpreendeu.

— Era melhor que ela viesse pessoalmente.

— Olha, eu sou uma pessoa prática… — comecei.

— Por isso que está aqui — Ana arregalou os olhos e balançou a cabeça levemente para os lados parecendo desnorteada.

— Exatamente por isso quero saber do que é que estamos tratando. É um problema de saúde que o plano não cobre? É um novo comportamento que ela adquiriu depois da cirurgia, como uma mania ou algo nojento, fedido, sei lá, que está arruinando a vida de vocês a ponto de me ligarem para vir aqui comer biscoitinhos na reunião de conselho da família Muniz?

— Quem conta? — Ana olhou para todas e aquilo estava me dando nos nervos.

Eu nem sei como fazia parte daquela família, porque aprendi a ser uma pessoa que vim ao mundo para desatar os nós, para simplificar e resolver e, não, para transformar tudo em um roteiro de novela mexicana.

Ana e Estela são filhas do segundo casamento da minha mãe e não nos parecemos tanto fisicamente, mas tivemos praticamente a mesma criação: escolas, cursos e convivência familiar.

Minha mãe e eu éramos brancas e tínhamos cabelo liso. Enquanto que Estela e Ana puxaram mais para as características do meu padrasto Joaquim: negro, de cabelo crespo. Ele sempre me tratou como uma filha e o considero como um pai, pois o meu morreu em um acidente de carro quando eu tinha 5 anos.

O que eu queria enxergar olhando para todas elas era: por que eram tão dependentes emocionalmente?

Era impressionante como podiam ser, às vezes, tão enroladas e cheias de complicações, sempre me ligando chorosas e super valorizando suas próprias crises existenciais.

Não seria agora que eu teria essa resposta, então, era bom que alguma delas me dissesse qual era a bomba dessa vez.

— A vovó quer escrever o testamento…

— Ah, estão preocupados com o dinheiro… — concluí, pois minha avó tinha 80 anos e agora temiam que ela morresse e deixasse um trabalhão de inventário para nós cuidarmos.

— Pior que não. Ok, nós precisamos de dinheiro — Estela começou.

— Nem me fale… — comentei, pois a minha vida financeira estava arruinada depois que fui mandada embora recentemente. Eu já tinha recebido dois e-mails de reclamação do aluguel atrasado.

— É que a vovó veio com certas condições, como se a gente estivesse em um jogo onde nós somos as marionetes e ela se diverte — Ana dramatizou.

— Ela está impondo condições e começou a nos infernizar, mandando a gente mudar tudo! — Estela contou muito irritada.

— O que é tudo? — perguntei.

— Quer que eu pare de fazer chapinha e alisamento no cabelo e assuma meus cachos. Mas eu gosto da minha versão lisa. É difícil fazer transição. — Estela reclamou e eu sabia que esse era um tema sensível para ela. — Vovó quer que eu arrume outro emprego e pare de estudar para concurso público. Na sua visão, eu só estou me enganando. Ela disse que não quer isso para mim, nem que eu fique só em casa. Daí mandou eu faxinar não só meu quarto, como a casa toda para queimar calorias e me alongar, porque eu estaria ficando sedentária e podia infartar como ela, mesmo tão jovem, o que seria fulminante. — Estela enumerou mal conseguindo respirar, atropelando uma palavra seguida da outra.

— No meu caso, ganhei as tarefas de: aprender a fazer uma comida melhor, a deixar o meu namorado com quem estou há seis anos porque ele, teoricamente, só está me enrolando e, de quebra, largar meu emprego e procurar outro que eu goste mais, como se pudéssemos nos dar a esse luxo — Ana ironizou, batendo com as mãos nas coxas, exausta.

— Eu agora tenho que trazer flores para casa para alegrar tudo, preciso comprar roupas mais interessantes e sair uma vez por semana com Joaquim, porque ela disse que estou ficando velha. Veja bem, minha mãe me dando conselhos sexuais. É, ela está opinando sobre a cor e o tipo das minhas calcinhas penduradas no varal! Eu acho que vou pedir um remédio para o médico dela para não pirar de vez. — Mamãe pegou quatro biscoitos de uma vez e começou a comer sem parar, movida pelo nervoso.

Respirei fundo e pisquei o olho, processando aquele quadro que mais parecia mesmo um teatrinho de marionetes.

— Ela acha que vai morrer mais cedo que a gente, por isso, pode falar o que quer. A vovó sente que tem o dever de nos orientar a levar uma vida melhor. É assim que se passa na cabeça dela — expliquei.

— É, pode ser. Não tinha visto por esse lado. Tá vendo como foi bom chamá-la? — Estela ressaltou.

— Como está a saúde da vovó?

— Ela está se recuperando muito bem da cirurgia do coração e o médico disse que está reagindo dentro do esperado. Mas como foi uma situação que mexeu tanto com a gente, ela agora está parecendo alguém sem filtro, que olha, fala o que quer, exige, manda, fala umas frases do nada, meio sem sentido. Parece até que abri aqueles livrinhos de bolso de autoajuda com uma frase para refletir — Ana desdenhou.

— É tão difícil e ruim assim o que ela pediu? Não vi nada de outro mundo — concluí.

— É porque não é com você. Espere só até subir e ganhar sua própria lista de tarefas para o Natal. Aí eu quero ver se não vai sentir que perdeu a liberdade sobre a sua vida! — Estela apontou para o meu peito com raiva por eu não estar sofrendo tanto quanto elas.

— E se vocês só mostrassem que estão se esforçando, mas também não levarem todos os pedidos à sério? Só dizer, “ah, é, vou ver isso, pode deixar, fica tranquila”?

— O objetivo da vovó está bem claro: 10 desafios para o Natal! Natal, ouviu bem? Daqui um mês e meio — Estela olhou o relógio. — Não se preocupe que vai ter um envelope para você também!

— Que desafios são esses? E de que envelope estão falando?

— Sua avó fez um envelope para cada uma de nós e disse que nos entregaria hoje. Queria ver nosso empenho até a ceia. Ela está realmente precisando ir para a terapia e acho que vou agendar — mamãe explicou.

— Ótimo, é isso que já deveriam ter feito. Agora eu preciso ir.

— Não, você não vai fugir dessa — Estela me puxou de um lado, Ana ao mesmo tempo me puxou do outro e minha mãe apontou para eu me sentar outra vez.

— Tá, eu vou lá em cima, serei muito clara com a vovó e iremos lidar como adultos com esta situação — aceitei, olhando para minhas irmãs e minha mãe.

— É para resolver, não é para se juntar a vovó e piorar tudo, ouviu, Eloá? Porque você é dessas — Ana resmungou quando comecei a subir as escadas e elas me seguiram atrás, ansiosas.

Entrei no quarto e encontrei vovó sentada na cama com uma pilha de cadernos de espiral, encapados com papel de presente cheios de figuras natalinas, como: árvores, bolas e renas. Do outro lado das suas pernas, havia envelopes vermelhos com adesivos dourados.

— Ficou bem encapado, Ana. Caprichou, minha querida — Ela agradeceu e Ana olhou para mim como se indicasse: “Viu? Esse foi um dos servicinhos que tive que parar a minha vida para fazer!”

Contei e havia seis cadernos e seis envelopes, pelos meus cálculos. Sinal de que meu padrasto Joaquim acabaria entrando nessa história de desafios de Natal. Coitado, logo ele que trabalhava como farmacêutico dia e noite.

— Minha querida, que bom que teve um tempo para mim.

— Eu sempre tenho, vovó — disse-lhe e beijei seu rosto, sentindo o cheirinho bom de alfazemas. Toquei no seu cabelo branco tão bonito e macio. Ela estava tão encantadora com aqueles óculos de aro dourado na pontinha do nariz, que eu não conseguia ver nenhuma maldade.

— Nós também temos, Eloá. — Estela consertou, mostrando que eu parecia ter esquecido de tudo que contaram lá embaixo e estava jogando contra elas, que confiaram em mim como mediadora da situação.

— Não vamos atrasar a Eloá, porque ela tem muito o que fazer — Vovó explicou e elas me olharam ressentidas, porque sei que estavam tentando lidar com a situação toda e agradá-la, chegando ao limite.

— Eu quero que vocês sejam felizes e não percam tempo na vida com o que não é importante — começou cerimoniosa e sei que dava a entender que suas escolhas eram as mais sábias, porque achava que já tinha vivido mais. — Por isso, como tinha avisado, fiz aqui dez desafios para o Natal. Essa festa é para celebrar a vida e quero ver vocês mais vibrantes, mais vivas e alegres. Não é uma data só para trocar presentes, é a comemoração do presente de Deus para nós, o menino Jesus! Se Deus deu tanto, por que não podem cumprir só 10 desafios? Deve dar para fazer uns dois por semana, se vocês se esforçarem mais do que estou vendo.

— Vovó — Ana começou e levantei a mão para não interromper a vovó.

— Cada uma vai ganhar um envelope e um caderno. — Entregou-nos. Isso nos constrangeu porque parecia tudo tão bonito e feito com carinho, mas eu já tinha sido alertada sobre suas intenções.

Procurei a poltrona velha e desbotada ao lado da cama para me sentar, cruzei as pernas e abri o envelope, passando curiosamente os olhos pela lista, ansiosa para ver se algo totalmente sem noção estava direcionado para mim.

— Ué, são todas iguais — Minhas irmãs e minha mãe compararam suas listas.

— Cada uma pode interpretar conforme encaixar melhor na sua vida — propôs e eu não estava achando tão ruim assim, afinal de contas, só havia ali várias frases genéricas e sem maldade.

— É só isso? — perguntei. — Deixa eu ver se entendi, vovó?! — pedi atenção. Eu sempre gostava de rever os pedidos de compras com os fornecedores da loja de roupas que eu gerenciava para ter certeza que todos entenderam o combinado e peguei esse hábito. — Desafios: 1- Superar seus preconceitos. 2- Servir em lugar de ser servido; 3- Trazer luz à escuridão; 4- Abrir a mente, o coração e expandir a alma; 5- Ficar fora da internet e sentir mais o presente; 6- Sentir o sabor das coisas simples; 7- Desejar para o outro o bem que faria a si mesmo; 8- Novas roupas para novos planos; 9- Proteja os mais fracos; 10- Arrisque-se pelo que faz seu coração bater forte — Terminei e fiquei intrigada. De onde ela havia tirado isso tudo? — A senhora veio anotando essas frases há um tempo e quer passar para nós?

— Exatamente, Eloá, você sempre me entende. Eu anotei isso no meu caderninho lá no hospital. As lembranças vinham e eu anotava o que aprendi. Por isso, cada uma vai ganhar um caderno também e quero que anotem o que fizeram para cumprir o desafio.

Remexi-me na poltrona, já que todas estavam agora me cobrando uma atitude e me dando a palavra:

— Vovó, como é que vamos ter certeza que cumprimos? Que medida usaríamos para mensurar que está feito? — perguntei, sempre usando minha cabeça marketeira focada em metas claras e numéricas.

— Eu falei para elas o que tinham que fazer e ficaram todas emburradas. Agora, para não reclamarem mais lá embaixo porque posso ouvir muito bem, eu deixei aberto. É só cumprir e colocar no caderno, é tão difícil isso para mulheres tão inteligentes como vocês?

— Não, vovó, não é, mas não queremos que diga como devemos cuidar do nosso cabelo, até porque essa é a nossa vida e Deus nos deu a liberdade de fazer o que queremos dela, do jeitinho que deu a liberdade da senhora fazer o que fez da sua. Nós só estamos todas com a mesma lista na mão e somos mulheres inteligentes, como bem falou, mas totalmente diferentes umas das outras. Pedidos diferentes, para pessoas diferentes pode dar em resultados também diferentes. A senhora entende isso?

— Claro que sim, e não foi o que acabei de explicar?

— Ok, temos uma lista que podemos interpretar, temos um prazo definido, um caderno para colocar nosso plano de ação e acho que é isso, não falta nada… — comecei a repassar e quase me soou como um planejamento de marketing para a loja.

— Claro que falta! Precisam de alguém para ajudar, não quero ninguém fazendo sozinha.

— Não estamos sozinhas, somos uma família — respondi.

— É melhor trabalhar em dupla, assim uma não faz a outra esquecer. Eu já fui professora, vai por mim, minha neta! Dá certo que é uma beleza — disse-me e cocei minha testa.

Uma equipe. Era isso. Faltavam as pessoas unidas para executar o plano.

— Ana vai ficar com a Estela e Heloísa com Joaquim.

— E a Eloá com a senhora, suponho — Estela comentou. — Podia acompanhar isso bem de pertinho mesmo, vovó. A Eloá está precisando tanto dos seus conselhos. Que tal mandar ela parar de usar esses vestidos pretos que faz parecer que está de luto? Ou falar para ela arrumar logo um emprego agora que está desempregada? O que acha de dizer para colocar uma calcinha mais enfiada na bunda para ver se melhora sua vida sexual? — disparou, carregada de ironias.

— Que grosseria é essa? — Vovó bateu com a mão na cama.

— Por favor, não se exalte, vovó — pedi. — Estela! — reclamei. —  Eu uso roupas pretas porque acho prático e combina com tudo. Além disso, eu trabalhava em uma loja onde essa era a cor padrão do uniforme. Não gosto de estampas e me sinto elegante de preto e vermelho. São cores marcantes para mim, não tenho que mudar isso — expliquei em minha defesa.

— Não vem ficar de fora não. Fala, vovó! Como a Eloá vai participar dessa gincana de família?! — Ana perguntou muito revoltada e com a voz carregada de ironia e deboche, não aceitando que eu pudesse apenas mostrar meu ponto de vista e querendo que eu também entrasse na rodada das grandes transformações de Natal.

— Eu preciso me recuperar. A Eloá ficará com o Yago.

— Yago? Quem é Yago? — perguntei, desconhecendo essa pessoa em nossa família.

Será que vovó agora tinha amigos imaginários?

— Ah, o Yago? — Ana levantou as sobrancelhas.

— Quem é Yago? — perguntei de novo.

— Por que eu não fico com o Yago? — Ana parecia se interessar pelo cara que eu nem sabia quem era.

— Mamãe, não pode colocar o Yago nisso, deixe essas coisas dentro da nossa família.

— Ele aceitou. Quando fui na consulta, propus a ele e concordou. Só não entreguei a carta para ele ainda. Pode fazer isso, Eloá? Não, melhor não, eu mesma vou entregar, porque podem acabar sem querer esquecendo.

— Se ao menos alguém aqui nesse quarto me contar quem é Yago! — irritei-me.

— O médico da vovó.

— O que eu tenho a ver com o médico da vovó?

— Se soubesse quem é, não recusaria — Ana explicou. — Acha que a Eloá é melhor do que eu para fazer uma dupla com ele?

Eu já não queria o Yago e agora menos ainda.

— Posso fazer sozinha, sou muito ocupada para ir atrás desse Yago. Eu tenho que arrumar um emprego logo, isso significa que vou a muitas entrevistas de recrutamento.

— Por isso mesmo, Yago pode te dar um emprego — Vovó explicou.

— O médico? — perguntei.

— É, ele precisa de uma babá.

Ana imediatamente fechou a boca, Estela se afastou para uma janela e era como se elas descobrissem uma parte ruim que não queriam mais.

— Vovó, eu só trabalhei de babá no intercâmbio! No meu último emprego, eu era gerente de uma loja de criança. Não vou trabalhar como babá bem agora, eu tenho que voltar a preencher o meu currículo…

— Você precisa de dinheiro. Seja mais humilde e aceite.

— Eu também acho que a Eloá anda pouco humilde… — Estela comentou olhando as unhas, como se sentisse um sabor nisso.

— Vovó, o que faz a senhora achar que eu poderia ser uma babá, sério?

— Ele precisa de uma, você precisa de dinheiro e pronto, é simples.

— Eu não iria na casa de Yago nem que fosse acorrentada. — Ana estremeceu dramaticamente e coçou a nuca.

— É que descobrimos que agora ele mora no casarão dos Romeus — Estela revelou.

— O casarão que ficou anos fechados depois que todos foram morrendo lá, até que acharam o último após dias morto na cama? — perguntei em voz alta. — O que está coberto de mato alto?

— A irmã dele comprou a casa por um preço bem barato e ia reformar — vovó explicou.

— Ia?

— É, ela morreu também — vovó falou com voz triste.

— Lá?

— Não, de câncer de pulmão. Deixou o garotinho, que Yago adotou.

— Sério, é pesado demais para mim, não dá.

— Mas eram desafios tão genéricos e fáceis, Eloá! — Estela disse irônica e o que começava a me irritar.

— Vovó, você vai ficar muito chateada comigo se eu não puder cumprir o que deseja?

— Decepcionada seria a palavra, porque de você é quem eu mais esperava. Coloco muita esperança em você, Eloá. Estava com grandes planos enquanto escrevia meu testamento.

— Eu vou dar conta disso e nos falamos no Natal — Ana colocou tudo debaixo do braço e saiu depois de Estela dizer que estava convencida.

Aposto que essas duas só queriam fugir e não iam fazer nada, estavam só enrolando a vovó!

— Tudo bem, mamãe, só queremos que se recupere e seja feliz. Vou fazer o jantar que já está tarde. — Saiu também.

Caramba! Todas escaparam e eu sobrei!

— Vovó, eu nem conheço esse Yago, muito menos quero trabalhar naquela casa que fica no meio do nada, onde se eu gritar ninguém vai ouvir! Não pode desejar isso para mim.

— Tenho um segredo e uma tarefa extra, se puder.

— Já tem coisas demais nessa lista.

— Queria fazer uma grande festa de Natal lá.

— Lá?! — Quase gritei. — Quer dizer festa de Halloween, né? Esse tema cairia super bem.

— Imagine as crianças correndo pelo jardim.

— Você diz correndo entre o mato alto, né? Se quer deve nascer uma flor naquele lugar.

— Ah, ele disse que vão limpar e reformar a casa e o jardim. A irmã deixou tudo pago porque tinha recebido um seguro do marido, que também já morreu. De quebra, Yago recebeu o seguro dela e ficou com a grana toda. Mas, junto com o dinheiro, veio um filho também que ele não planejou, coitado. O garotinho tem 5 anos e não é nada fácil criar uma criança nesta idade. Esse homem precisa de ajuda.

— Vovó, eu admiro seu senso de caridade, mas daí me usar?

— Que te usar, Eloá? Confie em mim, vocês podem se ajudar e formarão uma dupla e tanto, vão se sair melhor do que elas.

— Ele realmente aceitou isso, vovó?

— Sim, eu falei quando pedi para ficar sozinha na consulta com ele.

— Não pode ser.

— Aqui está o endereço dele — Entregou-me um papel com o telefone e local da casa que eu já sabia onde era. Afinal, todos que moravam próximos daquele bairro sabiam que era para não passar por lá. — Ele vai estar de folga quarta e quinta e você pode aparecer por lá.

— Aparecer sem hora marcada?

— É, ele disse que pode visitá-lo.

— Isso é uma loucura. O problema é que eu preciso de dinheiro urgente.

— Eu sei disso, querida. Mas não esqueça da lista. Cumpra sua parte que vai chegar no Natal com o coração cheio de bondade e Deus ficará tão orgulhoso.

— Seu médico vai rir disso, vovó! Vamos manter entre nós. Por favor, tire esse homem disso.

— Yago nunca iria rir, é um homem muito impressionante.

— Ah, com uma casa bem impressionante — lembrei-a.

—  Eu vou entregar a carta e, se ele se recusar, você só mantém sua parte de ser a babá.

— Melhor, me sinto mais confortável — disse-lhe, tendo certeza que nenhum médico ocupado e, em sã consciência, pararia para ficar cumprindo cada coisa que uma paciente lhe pedisse.

— Pronto, deixa comigo, eu falo com ele.

— Tem uma foto dele aí?

— Para quê? Precisa olhar para alguém para fazer uma bondade?

— Não, vovó.

— Então, pronto. Ele vai estar lá. É loiro e usa barba. O irmão também, porque já vasculhei o Facebook deles.

— Vovó!

— O irmão é engenheiro ou arquiteto. Agora não sei. Ele quem vai acompanhar a modificação na casa toda e mora com Yago.

— Ok, eu vou lá.

Todas as vezes em que visitei minha avó no hospital, não cruzei com o médico, por isso, não o conhecia pessoalmente. Eu trabalhava muito até tarde e não conseguia estar lá na hora da ronda dele.

Mas sabia que havia sido alguém muito importante para a sua recuperação. Minha avó já estava partindo, quando ele abriu seu peito e, na última tentativa, bombeou seu coração com a própria mão e a salvou. Foi um grande milagre e acho que ele também não irá se esquecer. Eu soube desse fato pela minha mãe, mas posso imaginar toda a cena na minha mente.

Desci as escadas e estavam todas colocando a mesa do jantar. Pararam e olharam para mim com esperança.

— Vamos ter que atender e assim ocupar o tempo dela. Vovó merece se sentir feliz, ela quase morreu recentemente. Não nos custa nada.

— Claro, né? Você precisa de dinheiro e vai ser bem conveniente. — Ana falou.

— Não seja tão dura — Estela segurou o braço dela. — Você não ia querer entrar naquela casa mesmo, quem dirá dormir nela.

— Como dormir? Eu tenho um apartamento, não vou dormir lá.

— Pois é, maninha, esqueceu que ele faz plantão? Alguém vai precisar ficar com a criança. É babá com período noturno. Boa sorte.

— Ah, não… — Deixei os braços penderem cansados, vendo que eu caí mesmo na teia da vovó.

 

Capítulo 2: D1: Superar seus preconceitos (Eloá)

Estacionei meu carro na frente do casarão de dois andares que ocupava um enorme terreno em um bairro residencial de casas de luxo. Olhei para a palma das minhas mãos manchadas de marrom. O portão que tive que abrir para passar estava enferrujado, como tudo por ali.

Como é que poderiam criar uma criança nesse lugar?

Respirei fundo, ajeitei meu vestido preto e caminhei de cabeça erguida até a porta de entrada, ouvindo a madeira da varanda estremecer quando minhas botas a pressionaram.

A grande porta rangeu de uma forma que me deu um certo medo de olhar para dentro, mas um bonito homem loiro apareceu e, não, uma governanta com verrugas e pó de arroz no rosto, como nos filmes de terror.

— Oi, eu sou a candidata a babá. Me chamo Eloá — apresentei-me e ele sorriu. — Você deve ser o irmão do Yago, acertei? Não tem cara de ser o médico — falei, lembrando das dicas da vovó e supondo que aquelas ferramentas penduradas em um cinturão de couro deveriam ser para consertar as coisas. Bem a cara dos engenheiros ou arquitetos.

— Realmente ninguém diria que tenho cara de médico! Ainda mais se me conhecessem melhor. Entre, por favor. — Abriu e estendeu a mão enluvada para eu passar.

— Deve ter muita coisa para ajeitar aqui — comentei, sorrindo para não parecer uma crítica. Mas ele devia ser consciente de que essa casa precisava mesmo era de uma ótima demolição.

O interior tinha pisos formando desenhos, grandes lustres de cristal, teto muito alto, lareira e móveis que um antiquário iria adorar conhecer para fazer um grande leilão.

Mas não havia lençóis cobrindo os móveis ou tanta poeira quanto imaginava, estava até bem limpo, apesar de merecer mais luz e um ar puro por ali.

Por que não afastavam aquelas cortinas pesadas?

Sentei-me no sofá de couro marrom que fez um barulho como se estivesse vivo, mas era só couro antigo mesmo.

Tudo nessa casa geme?

Olhei para ele ao ter esse pensamento e me deu vontade de rir.

Como um homem bonito daquele deveria gemer?

Balancei minha cabeça para o lado e peguei meu currículo na bolsa. Dei um leve pigarro e pensei como perguntar aquilo:

— Se incomodaria de, por favor, chamar o senhor Yago?

— Senhor?

— É, bem, não o conheço ainda para chamá-lo de maneira menos formal.

— Deve pensar isso porque Yago é médico! — Apontou para mim como se elucidasse uma investigação repentina. Agora ele estava com um cigarro eletrônico entre os dedos. Tragou e soltou uma baforada pelo nariz com cheiro de menta. — Desculpe… — Levantou-se para abrir um pouco a janela e ficou lá em pé. Devia era ter aberto logo tudo.

Olhei-o parado assim de lado.

Usava um jeans claro surrado, uma camisa xadrez amarela com listas azuis claro para fora da calça e botas pesadas de couro marrom, parecendo de motoqueiro ou de quem faz trekking.

Pela terra nas suas botas, eu arriscaria supor que gostava de andar na parte mais inóspita daquele lugar arrepiante.

— Estão gostando da vizinhança e desse lugar? — perguntei, já que ele ignorou completamente que pedi para chamar seu irmão, provavelmente, porque estava ocupado.

— Que vizinhança? Só se forem os corvos, as corujas e os ratos — riu. — Eu vou dar conta dos ratos, morrerão hoje mesmo com o tanto de remédio que coloquei, um banquete!

— Precisa ter cuidado com veneno e crianças!

— Luca vive no andar de cima e detesta queijo.

— Mesmo assim. Desculpe, eu não devo dar minha opinião se nem ao menos fui contratada. Aliás, foi para isso que vim, para uma entrevista — falei para lançar mais uma vez o pedido que chamasse o bendito Yago.

Ele olhou para fora e ouvi o barulho da chuva caindo.

— Ah, não! Vai alagar tudo — Corri até a janela para ter certeza que chovia e parei, soltando um pesado suspiro.

— Não vai poder ter pressa para ir embora, porque as ruas próximas ficam alagadas — comentou.

— Me ajudaria, se eu não demorasse tanto aqui. Por favor, voc…

— Gosta de chuva? — perguntou-me agora tão perto com sua voz grave.

— Não, tudo vira lama e mal consigo me locomover nessa cidade, parece que dobra a distância de tudo… — contei e parei. — Por outro lado, eu gosto de chuva — contradisse-me e gostou disso…

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