O amor esfriou?

Guardada a lingerie, acabado o vinho, secadas as flores, o amor torna-se aquele obeso sem ânimo, na poltrona da vida. Ele já foi atlético, correu atrás da amada, gritando seu nome na multidão, até puxá-la para um beijo descabido e intenso. Tinha força para pegar no colo, criatividade para cartões, delicadeza para rosas vermelhas, inteligência para piadas sem hora, curiosidade para cantos do corpo nunca antes queimados pelo fogo da paixão e um vinho sempre à boca. Agora ali, sem causa e sem ânimo, na poltrona.

A academia do amor poderia ter um letreiro luminoso: MIL E UMA NOITES, fazendo menção a inesquecível história da jovem Xerazade, que pede ao pai para casar-se com o sultão. Enlouquecido, o pai não acredita que ela possa se salvar da maldade daquele homem, que ao amanhecer de cada noite de amor mandava matar sua noiva, para que assim esta nunca o traísse. Mas Xerazade sabia fazer um outro tipo de amor. Após lhe penetrar com seu vigor físico, o sultão em todo seu poder desfalecia cansado sobre seus braços. Era aí que Xerazade lhe conduzia para uma nova maratona de amor, só que dessa vez, era ela que o penetrava pelos ouvidos com sua voz. Hábil contadora de estórias, a jovem Xerazade conduziu aquele homem por mil e uma noites…

O amor-atlético é aquele que, depois da rosa vermelha, vem a amarela, a branca, a tulipa a margarida… Que, usada a lingerie vermelha, ainda tem a preta, a branca, a com babado,a com zíper… Que, bebido o vinho tinto, experimenta o branco, o seco, o doce…Que, dado o cartão, vem a serenata à janela… Que, beijado com bala de hortelã, troca-se para a de morango, maracujá, chocolate, sorvete… Que, acabada a poesia de Fernando Pessoa, declara Vinícius de Moraes… Pois o amor atlético se exercita todos os dias, já que seu verbo é FAZER, indicando movimento, renovação e não ESTAR, esse é estático, obeso.

O FICAR nada mais é que um amor-obeso que começa o exercício na segunda e na quarta desiste. O NAMORAR é o amador que todos os dias se esforça para se superar e tem como troféu o sorriso do outro, o suspiro, o rubor, o prazer satisfeito. O CASAR é o profissional que sabe os seus limites, o seu ponto forte e conhece todas as artimanhas pra ganhar, nesse jogo onde toda vitória consiste em 1×1. A obesidade começa quando o profissional acha que sabe tudo, pois já passou por todas as graduações. Ai deixa a lingerie no guarda-roupa, o vinho no supermercado e as rosas na floricultura. Fica cansado, senta no sofá e não vê mais graça naquele programinha repetitivo que passa na tela da vida.

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