Blog da Li Mendi

Paz, a escolha que fiz para viver melhor

Domingo, estava selecionando fotos para o álbum de casamento. A tarefa é emocionante e cansativérrima. São dois mil enquadramentos e preciso escolher sessenta para imprimir. Enquanto pensava no custo da impressão e todo o cuidado em montar a estória daquele dia, eu tive um lapso de realidade e falei alto para o meu marido ao meu lado no sofá: “já pensou que nosso tataraneto pode um dia achar que essa estória não é mais importante e jogá-la fora no lixo?”. Ficamos em silêncio, aspirando no ar a perenidade da vida.

Gastamos dinheiro para a melhor maquiagem, vestido e festa, mas, tudo vai passar e virar poeira. Essa é a primeira conclusão rasa da razão. Mas, quando reflito que como escritora deixei livros que divertiram as pessoas, minhas sementes já estão espalhadas pelo Brasil. Um pedacinho de sonhada imortalidade. E refletindo num mergulho para uma camada mais profunda da reflexão, me dou conta de que só a matéria passa. Meu espírito está disposto a receber qualquer tarefa do plano superior: seja ficar lá “no céu” trabalhando para ajudar outros irmãos, ou voltando para encontrar a quem eu possa servir.

Se é para ficar aqui, vivendo por breve tempo, que seja para conquistar nada menos que a paz e felicidade. Eu colocaria a paz em primeiro lugar. Porque, às vezes, a felicidade está ligada a uma certa euforia, excitação, tem cores, luzes, fumaça, frenesi. Quando não está relacionada a pessoas, um amor, uma ligação… Já a paz é para qualquer momento. Acordar em paz, sem pressa de correr para o trânsito de duas horas. (Foi a escolha que fiz ao me mudar de um lindo apartamento distante do centro para um simples e modesto perto do trabalho). Escrever em paz, sem ficar me cobrando mais em ser uma escritora famosa que gostem do que eu escrevo. Isso significa fazer textos por vontade de escrever, sem que nem sejam lidos por alguém… (Foi o aprendizado maduro que tive ao entender que não seria fácil estourar em um país que lê tão pouco). Ler um livro no sofá com paz, enquanto a casa está arrumada. (Foi assim que decidi sacrificar meu salário para pagar uma faxineira para ter meu pouquinho tempo precioso para mim.) Veja que temos que fazer escolhas para buscar a paz. Vamos ficando mais velho e ela se torna um remédio para a pele, para o coração, para o estômago…

Não são só os árabes, judeus, ucranianos que estão em guerra. São tantas mulheres e homens pela rua em guerra consigo, vivendo vidas com muita luta, amargor, dificuldades. Falta paz.

Hoje, vi uma mulher no ponto de ônibus com um bebê no colo fumando. A fumaça envolvia a ela e a menina recém nascida. E ela tremia tragando com força. Olhei-a com o coração sentindo algo por ela que não sei o quê. Talvez esse “feeling de escritora que constrói personagens.” Algo nela ficou gravado em mim. Queria tanto saber o que a fazia fumar e prejudicar a ela e sua criança… Um motivo lhe roubara a paz.

Quais são as suas guerras? Você é uma parte lutando contra você mesmo ou é seu próprio aliado? O quanto se acusa de não ser bom, de errar, de comer e ser gordo ou magro, de se dar mal naquela apresentação…? Você também tira a sua própria paz?

Hoje, eu estava lendo um livro no metrô e fiquei com um pensamento punitivo de que eu estava há uma semana sem escrever meu novo livro. Então, eu me forcei a mentalizar que já dei muito para as pessoas, eu preciso doar um pouco para mim mesma. Buscar prazeres, viajar mais, ler outros livros, ver filmes de outras línguas e nações… Tenho que me reconciliar com a Li que é só uma garota de 30, que tem que viver. Viver em paz. Ela só não escreve.

 

Prefiro perder a guerra e ganhar a paz.

Bob Marley

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