Amor entre espinhos - Li Mendi

O primeiro amor entre os espinhos

É incoerente como atualmente as pessoas prezam a falta de compromisso e paradoxalmente estimulam as crianças na tenra infância a demonstrarem ligações afetivas. A própria mãe ri entre as amigas dizendo que o filho tem já uma “namoradinha”, mesmo que essa seja uma construção apenas da sua cabeça. E ela ainda irá se surpreender, quando o vir transar na sua cama, naquele fim de semana que decidiu viajar e voltar mais cedo para casa.

Complexo ver como, em meio a diversas expectativas exteriores, os adolescentes buscam o primeiro amor. Digo buscam, porque há uma sede em viver aqueles romances de cinema em que no espaço de 3 horas o drama se resolve e os personagens terminam rindo e se beijando no melhor desfecho happy end. Mal podem esperar por escreverem suas próprias histórias de amor, que já começa carregada de cem expectativas e intenções.

É desesperador, quando nos damos conta de que tudo pode dar errado, fora dos nossos scripts. O beijo fica molhado demais, o dente bate e a borrachinha do aparelho solta. Onde está o orgasmo na primeira relação?, se pergunta a menina, em meio a dor da perda do hímen? Nos filmes não é assim, tudo parecia bem mais fácil… Por que de repente, depois de passar por essas fortes emoções ela não vê uma mudança tão substancial assim no seu corpo como imaginava?

Por isso, porque ela só imaginava. O primeiro amor nasce esbarrando nos espinhos. Ele brota do mundo irreal e cheio de fantasias de nosso inconsciente e terrivelmente não se concretiza saciando todos nossos desejos primitivos. Não se sabe bem o que se busca a final no outro, o que se tem é muita vontade de experimentar tudo que é novo. E isso delega uma vital pré disposição ao erro, a dor e ao arrependimento. Mas para a maioria dos jovens vale o preço disso tudo para se destacar na frente dos amigos como a “garota” ou “garoto” vivido e resolvido no grupo. É interessante perceber como se “destacar” na realidade é uma tentativa de anular a diferença e não destoar pela ausência de experiência. Os que ficam por último sentem o peso e o desespero de se livrar logo da falta do primeiro beijo, da primeira transa, da primeira matinê.

Estranho ter tudo na mão desde de que nascemos, possuir dois pais narrando a nossa vida, segundo o desejo deles, e estarmos sozinhos na escolha de alguém para amar, logo se possível, a primeira vez.

A primeira perda é igualmente dura, quanto suportável. A luz dos anos iluminará nosso passado e nos mostrará o quanto fomos desajeitados nos passos iniciais dos relacionamentos amorosos. Há, claro, os casamentos de bodas de carvalho, que começaram no primeiro beijo e que renderam uma dúzia de netos gordinhos e sadios. Porém, de modo geral, é muito mais difícil, hoje, construir este amor sólido, quando o mundo prevê cada vez mais a individualização. Todos podem fazer tudo sozinhos. Ser de todo mundo e não ser de ninguém.

Pode parecer que foi inútil e muito chato ter ouvido falar de fordismo e modernismo lá na sua aula de história do segundo grau. Mas veja como a economia reflete no modo de socialização. Quando a indústria baseava seu modo de produção no fordismo, ou seja, os trabalhadores ficavam em pontos fixos das fábricas realizando uma única etapa da produção de um bem, havia um espaço de trabalho e um espaço de lazer, fora da fábrica nitidamente separados. Após a Segunda Guerra, o mundo expandiu a tecnologia para todos os cantos e agora o consumo de massa passou a dar lugar ao consumo por encomenda, personificado. Começa aí o taylorismo. Um modo de produção em que o indivíduo trabalha dentro da fábrica e fora dela, a partir do momento em que carrega com seu celular e computador ligado a rede a possibilidade de a todo momento estar ligado ao seu chefe.

Enquanto a economia mudou, o homem moderno dotado de todas as certezas, passou a se ver perdido no mundo das possibilidades. A cada dia aquela doença invencível ganhou sua vacina, as fórmulas matemáticas que não encontravam coerência na área de figuras geométricas irregulares cederam espaço para a lógica dos chips de computador. Resumindo: Ninguém pode ter mais certeza de nada, até que se prove o contrário. Chamamos esse homem sem segurança, imerso em um mar de possibilidades, de sujeito pós-moderno.

Agora sim podemos voltar a assunto “amor”. O sujeito pós-moderno tem ao seu favor vários mundos prontos para se acoplar em sua vida no modelo chave fechadura. Quer morar sozinho? Não se preocupe, nós fazemos para você embalagens pequenas e individuais para todos os produtos e assim você gastará menos! Quer largar seus pais e sua esposa? Divida um apartamento com um amigo ou um estranho, isso é normal, é “in”.

Já imaginou lá no século retrasado uma mulher que casava aos quatorze anos com um barrigudo que poderia ser seu avó dizendo para sua mãe “vou alugar um conjugado perto da faculdade e dividir com alguém”? Seria de arrepiar o cabelinho da nuca.

Por isso, fica mais fácil compreender agora como atualmente não é tão simples assim sustentar uma relação, uma vez que o mundo não condena moralmente da mesma forma atos que, passe o tempo que for, ainda irão ferir o nosso coração, como a traição, por exemplo.

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