Ouvir é um ato de amor - Li Mendi

Tão perto e tão longe

“É tanta coisa para se ver, que as pessoas não se percebem mais”

Quando os Irmãos Lumière inventaram o cinematógrafo, em 1865, geraram a célula da grande indústria do entretenimento. Mas não foi tão fácil fazer cinema com atores oriundos do teatro. Os gestos eram espalhafatosos, extravasavam o limite do enquadramento e a voz saia alta demais. Enfim, era preciso fazer escola para aquele novo suporte. Não diferente aconteceu, aqui no Brasil, com as primeiras adaptações de roteiros de novelas para a televisão. Os atores do rádio tiveram que aprender a linguagem televisual.

Repare que, no teatro, o público está afastado da cena e por isso faz-se necessário à extravagância dos gestos dos personagens. Enquanto que, na televisão e no cinema, a lente da câmera expõe o início da gota de lágrima, no canto do olho. Ambos provocam emoção, mas venho aqui falar, justamente, sobre a diferença do distanciamento necessária a apreensão de toda a emoção encenada na vida.

Na atualidade, as pessoas estão ora no palco, ora na platéia, como em um teatro de largos gestos. As mulheres gritam, riem escandalosamente, xingam alto, enfim, não há um superego social para condená-las, como havia antes da revolução sexual. Elas podem tudo, elas podem ser como homens. Só que nem tudo que se pode, se convém.

A gênese desta nova gestualidade berrante é o fato dos indivíduos não prestarem mais atenção uns nos outros. Em conseqüência disso, houve um embrutecimento e desgaste do romantismo, do gesto pequeno, do olhar que se move na cabeça estática, do recolher das mãos e da delicadeza do toque. Assistam os beijos de cinema dos filmes épicos, eram efusivos com poucos movimentos. Hoje, o personagem joga a mulher na parede e lhe arranca a roupa, logo no primeiro contato.

Lutamos contra a repressão e agora você pede um retrocesso de outrora, me perguntariam. Não. Apenas me sinto por vezes estranha à geração da desatenção. Os meios de comunicação poluíram sonora e visualmente a vida urbana. O som no último volume, a televisão ligada, o computador ligado, o celular ligado, os outdoors lado a lado, os letreiros piscando. É tanta coisa para se ver, que as pessoas não se percebem mais. Qual a roupa que sua mãe estava vestida ontem, quando passou pelo seu quarto para lhe dar boa noite e você estava de costas, no zap?

Os livros de auto-ajuda batem recorde de vendas porque eles falam o óbvio e as pessoas não estão mais atentas ao que se coloca na frente dos seus olhos. A sensibilidade está em um processo de erosão lamentável.

Eu gosto muito de estudar o ser humano, talvez por isso virei escritora. Tenho o costume de catalogar as pequenas mudanças no tom de voz. É um prazer descobrir o que o outro procura dizer na entrelinha do pensamento velado. Ouvir é um ato de amor, quando o outro penetra com a voz no seu ouvido e se derrama na alma.

Quando aprendemos a escutar também os gestos, as frases físicas de que falam a mão, a boca, os olhos, as pernas, os dedos, fica mais fácil amar outrem. Não é preciso querer fazê-lo espelho para conseguir conviver. Quem sabe ser compreensível com o limite do companheiro tem muito mais chance de ser feliz.

Para nós que amamos um militar, em grande parte, à distância, ter um amor atento é o segredo para consolidação do relacionamento. Não é preciso estar perto para se amar, porque o amor mora dentro do coração e não no espaço físico entre dois corpos, ele é interior. Alguém pode estar ao seu lado e não te ver ou muito longe e te conhecer como ninguém.

Li Mendi

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