Dia a Dia da Autora Li Mendi

Tônus da criatividade

Férias. Almoço no sofá, vendo TV, um luxo. Passava uma matéria com a atriz Drica Moraes, que recentemente se recuperou de câncer. Perguntada sobre a diferença de Drica do começo da carreira e a Drica de hoje, dezenas de novelas, filmes e seriados depois, ela respondeu: “Eu tinha uma grande inocência”. E ficou pensativa. Eu esperei que continuasse a frase com uma auto-crítica pejorativa, sobre ter amadurecido, ficado mais esperta, profissional, madura etc. Mas, seu silêncio foi interrompido de maneira surpreendente pra mim: “Mas, depois da doença, eu voltei a ter essa inocência e hoje me sinto mais completa”.

Foi a minha vez de refletir que no começo, quando eu escrevia O amor está no Quarto ao lado, por exemplo, eu tinha uma escrita mais livre, solta, sem compromisso com ninguém, com o português, com nada, não estava muito aí se gostavam da estória. Essa era uma inocência. Claro que 15 anos e 20 livros depois, é inegável o aprimoramento da técnica. Porém, até que ponto o perder dessa “inocência” criativa não é ruim também?

E a matéria terminou com uma declaração: “eu precisei levar um tempo depois da doença pra ficar forte, retomar o tônus muscular, porque eu tenho que estar inteira no palco, completa.” Aquilo estremeceu-me como escritora. Quando chego em casa do trabalho muito tarde e muitíssimo cansada, eu não estou com o tônus pra sentar e produzir da mesma forma que estaria no fim de semana, após uma ótima noite de sono. Isso é pra mim pintar um quadro faltando menos palheta de tinta, não é a mesma entrega de luz e de formas nas imagens produzidas!

Mas, não é possível viver só da escrita, por isso, a minha guerra de resistência é diária. O dia que não publico um capítulo não é porque esqueço ou não estou nem aí; Não escrevo porque, às vezes, me falta sentir inteira os personagens. É preciso ganhar o pão, sair, pegar o trânsito, trabalhar e lutar. Contudo, “não é só de pão que vive o homem”.

Agora, de férias, no silêncio do escritório, sol entrando na janela, sem sono, uma boa xícara de café, bom humor, pego os textos dos livros passados para revisão, sinto-me com uma saudade doida de uma escritora lá no começo, só universitária, que tinha tempo para ir a uma exposição no museu por semana, não perdia uma amostra de arte ou fotografia. O perfume da minha alma era o aroma das bibliotecas e dos museus. Agora, são tantos números, tantas planilhas e burocracias do trabalho que, apesar de gostar muito da minha profissão, sinto que me falta essa parte para ser mais inteira: o ócio criativo.

O que posso fazer, senão, resistir e continuar, mesmo que com menos velocidade. E essa crise do ócio criativo não acomete só os produtores de artes: pintores, escritores, cantores, atores que precisam lutar contra a maré de falta de incentivo governamental à cultura. O público faz o que depois do trabalho pra preencher o ócio criativo? Ouve uma música, lê um livro, vai a uma peça de teatro ou a uma exposição de arte? Dormir é preciso. E assim segue a sociedade, como disse Jabor em um artigo: anestesiada.

É um pouco de pessimismo, mas também de realidade. As pessoas estão sempre felizes nos comerciais, rindo nas festas, a cultura da máxima felicidade. Quem fica bravo com o analfabetismo funcional, quem fica bravo com o índice de 1, 3 livros lidos por ano, quem fica bravo com poucos ingressos nas universidades?

É melhor não mergulhar muito na análise, vamos chegando a um substrato social triste. Mas, se está assim, por que os produtores de conteúdo resistem? Porque eles são revolucionários por acreditarem que ainda é possível mudar.

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