A sociedade do cansaço

A sociedade do cansaço

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A Sociedade do cansaço é o título e tema do livro do sul coreano Byung-chul Han que levanta que o excesso de positividade e a corrida pelo bom desempenho pode causar uma verdadeira exaustão mental.

Tratei desse tema no meu podcast Entre Asas, que combina com café. Te convido para ouvir no Spotify e a me seguir lá.

O que é a sociedade do cansaço?

É a sociedade que valoriza demais o desempenho e a superação pessoal, colocando a todos em uma corrida para mostrar que “venceu na vida”. Se possível, exibindo com lições e frases de autoajuda que legendam fotos de viagens, diplomas e pratos em restaurantes caros. É preciso vencer e mostrar que venceu em multiplataformas. Que canseira!

Como saber se seu cansaço é normal?

Sabe quando chega o fim de semana que você não quer encontrar um amigo para o um chop ou uma amiga para uma balada. O que você quer é apenas um vale “cama”? Não é um vale night, um vale sexo, um vale tinder, é um vale cama para dormir mesmo.

Dormir passa a ser seu “sonho de luxo” porque nossa mente não para.

Já tentou ficar alguns segundos esperando uma janela do navegador abrir ou um comando do computador acontecer? Parece um tempo infinito. Você já quer puxar o celular para abrir uma rede social ou mexer em outra janela ao mesmo tempo.

Aspiramos usar todo o tempo ao máximo. Parece até quando estamos na academia levantando o peso e ficamos naquele estado de tensão máxima contraindo o músculo.

Só que o cérebro nunca sai da tensão. E quando sai já está na hora de levantar para trabalhar de novo.

Mesmo quando não estamos mexendo nosso corpo, a mente fica em looping.

Eu estava lendo o livro: “Faça o trabalho que precisa ser feito” da Harvard Business Review Press e vi um artigo do Peter Bergman que falava que o Qi da pessoa cai 10% em performance quando você tenta fazer duas coisas.

Você acha que está abalando mas tá é mais burro mesmo. E tem outro trecho no livro que comparava uma noite de privação de sono ao efeito da lentidão neural como alguém que usa um cigarro de maconha.

Quem nunca ouviu essas frases:

“Dormir é uma perda de tempo?”

“Queria que meu dia tivesse 24h”.

– Amor, quer a verdade? Você ia só aumentar a lista, pouco provável que se daria descanso.

Eu lembrei de uma coisa agora. A Monja Cohen que eu admiro bastante falou em uma palestra dela que ouvi em seu Podcast sobre a oposição do movimento mindfullness que é mente cheia e ela brincou que devemos ter momentos de mente vazia, mente em repouso. Ela, claro, explica que não tem nada contra ao mindfullness, que é focar no momento presente e aproveitá-lo ao máximo com todo sabor. Mas nos traz a reflexão que nossa mente está sempre cheia e repleta de uma lista infinita de bullets do que fazer.

Projetos, tarefas, funções e cargos a alcançar, competição, competição. Nossa, eu estou completamente convencida que estamos mesmo na sociedade do cansaço.

E esse termo “Sociedade do cansaço” é o nome do livro publicado pela editora Vozes que citei no início desse artigo. O livro tem uma ideia interessante que esse excesso de positividade e das correntes de autoajuda e motivacionais estão provocando verdadeiras patologias neurais.

“A sociedade do século 21 não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade do desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais ‘sujeitos da obediência’. São empresários de si mesmos. (…) No lugar de proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados”, diz o autor.

Eu estava lendo uma matéria muito interessante no site nexojornal que falava de um estudo que documentava as consequências do excesso de trabalho.

Professores de uma Universidade na França apontaram em 2019 que trabalhar mais de 10 horas diárias, por pelo menos 50 dias ao ano, é um fator de risco para a ocorrência de AVC, ou seja,  Acidente Vascular Cerebral!

Estamos cada vez mais buscando sentindo no trabalho e nos nossos colegas de trabalho como um novo lugar que por muito tempo foi o peso da religião e o papel da família. É network para cá, network para lá. É saudável? Sim, com moderação.

Mas quanto tempo faz que você não fala com alguém da sua família? Quanto tempo não faz que não liga para aquele amigo?

Certamente você passa mais horas com pessoas do seu trabalho do que com seus filhos por dia ou seu companheiro.

Eu passo por tudo isso e esse tema me chamou muito a atenção. Quando eu saí do mundo corporativo vi minha taxa de acesso do WhatsApp cair de 5 horas por dia para minutos em alguns dias. Isso porque eu consigo desligar o celular e focar em um livro ou curso que estou fazendo.

Por que os gestores não só não param, como ele também acham que os outros têm o seu mesmo ritmo.

A incrível argentina Laura Gutman fala em um dos livros dela sobre esse ecossistema doente mentalmente que estamos vivendo. Uma espécie de uma leve loucura que passa desapercebida, mas que nos consome.

Como sair disso tudo? Acredito que é tomar consciência e você só faz isso muitas vezes se afastando. Saindo de casa um pouco, viajando, tirando umas férias, desligando e ficando off.

José Saramago brilhantemente diz: “É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.”

Faz quanto tempo você não saiu da ilha?

Porque quando estamos muito na ilha e não conseguimos dar conta dela, nos sentimos fracassados.

Eu arriscaria usar o termo “sociedade dos fracassados”. Porque, se são a minoria que viram milionários e muito bem sucedidos para os padrões midiáticos e corporativos, o que seria o oposto disso? Fracassados?

É óbvio que ser milionário, ter poder e famoso não é uma relação obrigatoriamente direta em relação a felicidade. Mas como “ser bem sucedido” para esfregar na cara dos outros com selfies em restos caros em fotos instagramáveis virou uma obsessão tão grande, que há uma massa expectadora que só pode resumir sua existência a apertar no coração do like e se sentir tão fracassada.

A sensação de falhar em algo que virou um padrão: mostrar que está próspero corrói as pessoas e as deixam ansiosas. E essa ansiedade por não dar conta de tudo nos tira o sono.

Meu marido fala sempre para mim “você leva da vida a vida que leva”.

No meu curso “profissão leitor” fiz um módulo bônus sobre produtividade e coloquei ferramentas para otimizar a gestão das tarefas. Mas a todo momento eu repeti para meus alunos: “você vai fazer isso não para trabalhar mais, mas para ter mais tempo para descansar e estar com quem ama”. Isso é um valor para mim e era isso que eu queria transmitir.

Eu trabalho muito por conta da paixão pelo que faço, mas quando faço esse podcast e esse post, são os meus ouvidos que ouvem primeiro e é para mim também que conto tudo isso.

E não podia terminar sem falar de algo sério pelo qual já vivi e vi meus amigos do trabalho também enfrentarem em diferentes graus: o Burnout.

Síndrome de Burnout é um distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso, definido por Herbert J. Freudenberger como “(…) um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional”. Fonte

Burnout quer dizer “queimar por completo” em inglês.

É você se derreter e corroer por dentro em todas as suas forças. Porém, o perigo é que é um processo de fases em que você evolui, às vezes, sem se dar conta:

São dez os estágios de Burnout (fonte):

  1. Dedicação intensificada – com predominância da necessidade de fazer tudo sozinho e a qualquer hora do dia (imediatismo);
  2. Descaso com as necessidades pessoais – comer, dormir, sair com os amigos começam a perder o sentido;
  3. Aversão a conflitos – o portador percebe que algo não vai bem, mas não enfrenta o problema (Procrastinação). É quando ocorrem as manifestações físicas;
  4. Reinterpretação dos valores – isolamento, fuga dos conflitos. O que antes tinha valor sofre desvalorização: lazer, casa, amigos, e a única medida da autoestima é o trabalho;
  5. Negação de problemas – nessa fase os outros são completamente desvalorizados, tidos como incapazes ou com desempenho abaixo do seu. Os contatos sociais são repelidos, cinismo e agressão são os sinais mais evidentes;
  6. Recolhimento e aversão a reuniões (recusa à socialização; evitar o diálogo e dar prioridade aos e-mails, mensagens, recados etc);
  7. Despersonalização (momentos de confusão mental onde a pessoa não sente seu corpo como habitualmente. Pode se sentir flutuando ao ir ao trabalho, tem a percepção de que não controla o que diz ou que fala, não se reconhece). Mudanças evidentes de comportamento (dificuldade de aceitar certas brincadeiras com bom senso e bom humor);
  8. Tristeza intensa – marcas de indiferença, desesperança, exaustão. A vida perde o sentido. Vazio interior e sensação de que tudo é complicado, difícil e desgastante;
  9. Colapso físicoe mental.
  10. Esse estágio é considerado de emergência e a ajuda médica e psicológica se tornam uma urgência.[1]

 

Profissões com maior tendência ao Burnout (fonte):

Profissionais de TI, cientistas, policiais, taxistas, bancários, controladores de tráfego aéreo, engenheiros, músicos, professores e artistas.

Sim, existe até um código para a doença de tão comum que ela se tornou no dia a dia:

“A síndrome de Burnout está inserida no capítulo XXI da categoria que se refere aos problemas relacionados com a organização de seu modo de vida (Z73), descrita na Classificação Internacional de Doenças (CID10), versão 2010, pelo código Z73. 0 Burn-out (estado de exaustão vital).” (Fonte)

É bom nos cuidarmos, senão o coração fica preso nas tarefas e suas asas ficam tensas.

Que nosso coração ganhe asas.

 

Livro referido:

Sociedade do Cansaço Livro E-book autor Byung-Chul Han

Sociedade do Cansaço Livro

Autor: Byung-Chul Han

 

Referências:

Nexo Jornal: Sociedade do Cansaço

Vivemos na Sociedade do Cansaço? (Pondé)

Livro Sociedade do Cansaço de Byung- Chul-Han

La fatigue d’être soi: dépression et société de Alain Ehrenberg

Destaca-se também sobre o tema o livro “Ensaio sobre o cansaço” de Peter Handke.

Síndrome de Burnout: uma doença relacionada ao trabalho.

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