Blog da Li Mendi

Como priorizar a agenda para ser feliz e ter tempo para fazer o que gosta?

Nunca antes ficar em silêncio foi tão inútil. Eu era uma dessas que pensava isso, porque minha agenda não permitia. O presidente na Casa Branca devia ter mais hora livre na sua agenda que eu na minha. Para ser bem clara, minha vida era tão difícil, que eu não a desejaria a ninguém, só ao Chuck Norris. Todas as minhas listas começavam com tarefas para hoje e com acréscimos que eu tentaria espremer, mas que, se não desse, tudo bem, faria logo amanhã. Tinha de tudo: tarefas de ocupação, de limpeza, estudo, trabalho, mas, do coração, ahhh sempre ficava sem riscos ou “v” de feito. É aí que sua vida está tão cheia que sente que nunca foi tão vazia. Faltava a mim na agenda e isso tinha motivo: talvez, eu não quisesse ficar sozinha comigo mesma. É difícil se ouvir e conviver com a própria sombra. Já se identificou afastada de si? Conectada com o outlook, com seu trabalho, com as contas de casa, mas, não, consigo?

Se os computadores estão com processadores mais rápidos, a internet disparou de Kbytes para muitas dezenas de mega bytes e os vôos estão baratos para qualquer um cruzar esse mundo por aí, veja bem, por que não posso ser multi e veloz de dar gosto para botar no currículo? Posso até me ouvir orgulhosa em acreditar que sou capaz de realizar várias tarefas ao mesmo tempo. Hoje, sinto outro orgulho: o de conseguir deixar algumas de lado para cuidar de mim.

Não foi uma amiga que primeiro me disse que estava tudo errado. Não foi meus pais ou meu marido. Nem um anjo apareceu aqui me dando um baita susto. Foi meu corpo, ele falou, desculpe, ele berrou e estourou meus tímpanos internos a todos pulmões até eu ouvir. (E quando você não quer se ouvir, o corpo não brinca no jogo e pega pesado, dá um nocaute na cama que deixa até o José Aldo com inveja.) Quando não há tempo para cuidar de si, ahhh, seu corpo arruma e escolhe o método baixa imunidade com suas mais variadas formas.

Começa com aquela gastrite que qualquer omeprazol ajuda, depois com um refluxo que o travesseiro alto dá uma aliviada, vem com uma dor de cabeça que um belo analgésico facilita. Aí a brincadeira passa para uma síndrome que me deixa muito, muito debilitada e não quero falar de doença aqui nesse post. O fato é que a cada grito do corpo, fui me sentido mais vítima. Por que eu tenho algo sem cura? Que fiz de mal aos outros? Por que adquiri um troço que me tira a sociabilidade, me dá pânico quando começa, hum? Tenho carma de que?

A conta do cartão de crédito aumenta e a culpa não é dos bazares e coleções off das lojas, nem o uber bombando na fatura. São remédios. E ninguém acha útil gastar com remédios.

Então, minha grande amiga Erica com aquela voz sábia, pausada, cautelosa e serena, olhando bem nos meus olhos, mediu, pesou e me disse: “você precisa desacelerar e se conhecer”. Nossa, eu quero todo dia abraçá-la e dizer “obrigada”. Escrever isso me fez sentir os olhos cheios de lágrimas. Paro um pouco aqui. Ok volto. E ela foi direto ao ponto: “você precisa de ajuda e de uma terapia”. Sou prática, consegui alguns números, liguei, marquei, cheguei lá e fiquei balançando o pé enquanto folheava uma revista na recepção totalmente alheia ao que vim fazer ali, no auge da minha arrogância de que não preciso de ajuda para conversar. Sou a pessoa mais aberta do mundo, falo tudo, faço snap, subo no palco, pego microfone, oras.

Até entrar em sentar, eu tinha certeza que poderia fazer alguma coisa melhor que pagar todo aquele dinheiro para uma hora de conversa. Foi quando comecei a contar uma timeline da minha vida. Contar é bonito de dizer, comecei a vomitar, disparar, metralhar. Foi uma sequência sem fôlego de milhares de descrições de cursos, tarefas, faculdades, trabalhos, metas, livros, eventos etc. Então, na primeira citação de um problema pessoal eu chorei. Ali, chorando, recebendo um lenço, eu vi que o dinheiro estava aplicado bem, que a Erica tinha toda razão e que eu estava no lugar certo.

Dias antes, no hospital, num estágio bem ruim da minha síndrome eu escrevi num postit mental: “esse é o fundo do poço, é o meu limite, não sei como me salvar”. Estava tão doente e hoje sei que, na verdade, toda a minha energia acabara e eu precisava plugar na bateria. Infelizmente, algumas pessoas não respeitaram meu processo de doença e exigiram mais de mim do que eu podia dar. Só que ali eu ainda não sabia dizer não, eu não sabia me proteger.
Sim, lá estava eu no consultório, plugada carregador-com-tomada na terapia. Minha vida não saiu mais leve dali, mas, eu sabia agora quantos quilos pesava e quantos sacos se podiam empilhar (igual meu amigo fala que mede o aumento de gordura por quantos tabletes de manteiga representa). Minha síndrome não tem cura, mas, eu sabia a causa e agora tinha ferramentas para lidar. Todos os problemas que levei continuavam sendo problemas, mas, eu saia da posição de “problemática para uma mulher com problemas” (frase da sábia Erica).

Desacelerar é escolher novas prioridades para o tempo. Quando dizemos “não temos tempo de ver uma amiga”, na verdade, não demos “prioridade” para ver uma amiga. Há tempo, não há prioridade. Essa deve ser a visão mais sensata e honesta sobre o que é a temporalidade. Você escolhe isso e deixa de fazer aquilo com a consequência que vem junto. E para mim, primeiro vinha a carreira, as tarefas domésticas, a agenda do outlook, os livros, os compromissos, os eventos…

Desacelerar é viver o angustiante conflito cuposo incial de estar ocupando o dia de forma aparentemnte inútil, frívola, sem produtividade. De verdade: qual é o grande crescimento pessoal e profissional em parar para testar uma receita na cozinha, dormir mais horas se tem cápsulas de café para isso? Fazer chá com as amigas que só podem estar ocupadas como você e nem querem comer biscoitinhos caseiros…

Mas o esquema é claro, na terapia você tem que se dispor a tentar experimentar a mudança e exercitar outras formas de agir e pensar. Então, peguei meus sobrinhos e levei para o apartamento do meu pai que tem uma ótima área de lazer e uma deliciosa piscina. Nem preciso dizer que conto nos dedos às vezes que fui lá usufrir. E, se fui, devia estar lendo um livro pesado. Fiz o almoço, bolo de chocolate, dancei na frente da TV, empurrei o balanço, admirei meus pequenos correndo na piscina infantil. Sempre batendo aquela culpa idiota: “puxa, eu tenho esse dia de feriado livre e estou aqui fazendo isso…”. No fim, estávamos mortos e no dia inteiro consegui fazer isso: ócio criativo! Que vitória.

O bom é que quando se começa a se exercitar, vem os músculos que te dão a naturalidade dos movimentos. Aos poucos, tirar itens da agenda e incluir jantar com meu marido no meio da semana, fazer queijos e vinhos em casa, marcar de sair com amigos íntimos, chamar amigas para vir a minha casa tomar chá, ver mais minha família, ligar para o meu irmão… foram entrando na minha rotina. Para isso, precisei negar entrevistas, exposições, me afastei um pouco da internet, restringi ao máximo meu trabalho na empresa a oito horas fixas e cada dia era mais fácil negociar e dizer não para o que era possível para tornar a minha felicidade viável. Egoísmo? Não quero dar nome a isso. Mas, seja lá qual for o nome, me trouxe a saúde.

A energia voltou a circular dentro de mim e finalmente fiquei bem, sem dores, sem espamos, sem ansiedades, saudável. E se desequilibrar, agora eu sei o que é preciso fazer para me reencontrar, quais as ferramentas usar para enfrentar tudo com força e coragem, de frente.

Você pode estar em depressão ou ainda na fase inicial “deprimido” sorrindo e com sucesso. É difícil você se ajudar quando seu personagem de “pessoa bem sucedida” está bem representado.

Nesse percurso de terapia, eu recebi de empréstimo um livro da Laura Gutman, onde ela falava de como a mulher precisa se encontrar com a sua sombra. Hen? Sombra, a nossa parte mais primitiva, onde mora nossos pensamentos violentos, nossos desejos.

Era óbvio que eu não estava nem aí para saber quem era minha sombra se jantava no computador, tomava café da manhã ou almoçava mexendo no celular o tempo todo. Com tantos cursos, jobs e projetos, mal cuidava de ficar em pé, quem dirá olhar para dentro.

Usei do método de escrever e comecei a fazer um download de tudo que eu pensava em um caderno de registros. Ali eu podia dizer tudo de forma violenta, irada, irritada, medrosa, frustrada. Depois, me livrava das folhas. Se fosse pensar em deixar aquilo ao alcance de alguém eu não seria tão sincera. É preciso a segurança da confidencialidade.
Comecei a identificar o que me diminuía, o que me apagava e me abusava como pessoa. Estabeleci para mim metas de auto-proteção e comecei a me sentir forte para me blindar. Não ia ser fácil, porque dizer não para as pessoas e defender seu território físico e de tempo é batata arrumar desafetos. Desapontei algumas pessoas que não reagiram nada bem, mas, respirei fundo e mantive o foco na minha missão: vou me cuidar, me priorizar, me preservar para ficar saudável e feliz outra vez!

A maior ironia do destino: hoje, eu consigo tempo para malhar de manhã, para ler muitos livros, para ser sociável e para finalmente voltar a escrever. Hoje, sou produtiva por consequência e, não, por motivo de vida. Para ter tempo, você precisa deixar o ótimo de lado, praticar o bom; se desapegar de querer elogios e entregar o necessário com eficiência e negociar mais prazo. Resultado? Cabe a vida pessoal na agenda, sim.

Eu nunca teria tempo para um curso de meditação como estou fazendo agora. Eu priorizei. Eu nunca teria tempo de dormir a tarde como fiz hoje. Eu priorizei. Eu nunca teria tempo de ir a casa de uma amiga para almoçar com ela como aconteceu hoje. Eu priorizei. Eu não estaria aqui escrevendo, mas, deixei de fazer um monte de outras atividades que não escrevi em nenhuma lista hoje. Simplesmente, priorizei o chá, esse texto e a música de sons de lareira que está tocando no meu fone de ouvido de forma tão calorosa.

Excercito todo dia para não perder a musculatura do autoconhecimento a não estar mais disponível sempre ou para qualquer um. Minha atenção para o whatsapp é muito limitada, minhas horas vagando na web também são curtas e objetivas. Não estou à deriva. Tenho que dormir bem, ler textos úteis e que me engrandeçam, dar carinho e amor aos meus entes queridos e me permitir comer pipoca enquanto assisto filmes ou só ouço música sem culpa. Todo mundo pode esperar, mesmo que isso cause indisposição para eu ser feliz.

É difícil para quem é workaholic mudar a forma de pensar, ainda mais se somado a isso tem o desejo de ser perfeito e dar o máximo de si. Aí a vida se torna um elástico esticado ao máximo.

Volto a escrever por hobby, por prazer, como foi no começo e desejo ajudar mais pessoas que ser reconhecida por elas.

Agora eu aceito mais ser a vaca. Aquela vaca não pode falar comigo agora, aquela vaca não pode me dar atenção agora, aquela vaca não me responde logo, aquela vaca não quer me dar isso ou aquilo. Sabe “a vaca”?
Tudo bem se lá no fundinho algumas pessoas me chamarem de vaca na sua forma infantilizada e dependente de quererem tudo para si e no seu momento (posso entendê-las, não posso estar sempre disponível).

Eu não sou o que elas pensam que eu sou. Eu sou o que estou descobrindo de mim.

1 responder
  1. Xenia Silveira
    Xenia Silveira says:

    Chorei e me vi em vc com algumas situações. Tão mais fácil atolar em atividades do q enxergar o nosso interior. É preciso levar um susto para dar valor a coisas simples e principalmente se colocar em primeiro lugar.

    Responder

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